História do lixo

Em diversas cidades europeias, de Edimburgo a Faenza, os moradores tinham permissão para esvaziar baldes de água suja na rua, desde que antes gritassem pela janela para dar aos passantes uma oportunidade de se abrigar.

Tudo tem uma história. O clima, os sonhos, ideias de limpeza e formas de sociabilidade, por exemplo, tudo muda ao longo dos séculos, e essas mudanças podem ser mais bem compreendidas quando relacionamos com o que acontecia na mesma época. Em primeiro lugar, o que é considerado lixo varia entre uma cultura e outra. O lixo, assim como a sujeira, é simplesmente material no lugar errado. Na China tradicional, por exemplo, todo pedaço de papel com algo escrito era considerado valioso. Não deveria ser jogado fora, mas podia ser queimado com ritual de respeito.

Outra maneira de escrever a história do lixo seria examinar as mudanças dos procedimentos para descartá-lo. Hoje a escala do problema é impressionante, para não dizer alarmante: 13 mil toneladas de lixo são removidas diariamente das ruas de São Paulo.

Os regulamentos municipais, gradualmente, se tornaram mais severos, à medida que as cidades cresciam e a densidade da população aumentava. As pessoas que praticavam ofícios “sujos”, como açougueiros e peixeiros, eram empurrados para as bordas da cidade, juntamente com os negócios ruidosos (ferreiros, por exemplo) e malcheirosos (fabricantes de vela). Para manter o controle da cidade limpa, em Siena, a municipalidade contratava porcos enquanto na Bolonha a disposição do lixo foi regulamentada por uma série de leis, desde o século XIII até o XVI. Em Bordeaux, as pilhas de refugos fora dos portões da cidade eram tão altas que foram consideradas um perigo à saúde e à segurança, já que ofereciam uma maneira de escalar as muralhas.

Os padrões de higiene urbana, incluindo a coleta seletiva, eram relativamente altos na Idade Média, declinando depois do ano de 1500 e ainda rapidamente após 1800, com ascensão das primeiras cidades industriais. Na fábrica de carros de Detroit, em meados do século XX, a empresa coletava o papel em que os trabalhadores embrulhavam seus sanduíches, já que tanto lixo desse tipo se acumulava diariamente na fábrica, que se tornava rentável vendê-lo para reciclagem.

Algumas ideias que consideramos claramente modernas e inspiradas pela preocupação com o ambiente têm uma história mais longa e um motivo diferente. A ideia de colocar três recipientes na rua para conter diferentes tipos de lixo foi apresentada em Paris, em 1767, e novamente em Nova York, em 1895. A ideia não foi adotada, mas comercialmente tinha sentido. Afinal, lixo é simplesmente material no lugar errado. Na Grã-Bretanha, os objetos da década de 50 foram desprezados como porcarias, mas passaram a ser colecionados pelos europeus na década de 80.
(Adaptado do texto “Uma história social do lixo” de Peter Burke, Jornal Folha de São Paulo 09/12/2001)